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07/07/2017

Uma parte já foi

2017 se tornou o ano em que eu consegui entrar numa faculdade para cursar cinema, e aí acho válido já fazer uma recapitulação do primeiro semestre. Além de toda a experiência pessoal de vir morar sozinho em Niteroi, há (ainda em processo, sempre) aquele ritual todo de repensar anos de cinefilia descompromissada por olhos, desta vez, de quem um dia vai depender financeiramente desse universo. Muita coisa nova sendo aprendida, muita coisa velha sendo redescoberta, tudo em diálogo constante enquanto o país vai pegando fogo e eu vou tendo que me virar no dia-a-dia.


Em relação aos filmes lançados em circuito no Brasil nesse período, o melhor, dos que eu consegui ver, foi Toni Erdmann. Acabou dividindo um pouco seu público, e foi um tanto subestimado como um filme sobre o universo corporativo (ainda que isso esteja bem equilibrado com o drama do choque de gerações), em como ele explora e constrói uma atmosfera detalhada em cima disso, longe de uma retórica fácil sobre crises econômicas robotizando as pessoas. Tudo avança naquele impulso John Cassavetes de abordar existências desesperadas num misto de melancolia, cotidiano e constrangimento, e eu adorei. Silêncio, do Scorsese, que eu também acabei não comentando aqui, foi outro muito bom, provavelmente o melhor dos americanos. Há todo um problema de ponto de vista que eu acho que o filme insere bem no seu procedimento narrativo, como se o olhar religioso fosse por si só, em essência, uma fonte de conflitos e de bases culturais. Não que essa visão seja sua finalidade maior - ao contrário, é sim um conto pessoal, de um homem cristão, sobre fé e espiritualidade. Com a tensão semiótica, fica bem mais interessante, claro.


Já entre os brasileiros, Martírio, aquele documentário de Vincent Carelli, foi o meu favorito. Investigação intensa, bem narrada e com um efeito acumulativo que integra não só seus próprios momentos, mas um peso histórico de genocídio velado. Das tentativas recentes de um cinema nacional político/explosivo, de reação a uma onda ultraconservadora, acho que esse foi mais longe que todos os outros. E ver no cinema foi de um desconforto maravilhoso.

29/06/2017

Ao vivo e em cores


Provavelmente diz muito sobre Divinas Divas, documentário dirigido por Leandra Leal abordando um grupo icônico de transformistas cariocas, que quanto mais o filme adentra em questões sombrias relacionadas à situação histórica de suas personagens, mais estas sorriem de volta pra câmera, e mais se avança num sentimento de orgulho: o que Leandra parece buscar é antes a sensação de uma resistência plena e natural do que um peso (político, social e temporal) que se estabelece sobre as figuras filmadas.

Desde o começo fica claro um território bastante pessoal no cenário do filme, quando Leandra, em off, explica que membros da sua família têm ligação com a comunidade LGBT há anos e, principalmente, com o Teatro Rival onde a câmera se instala a maior parte da narrativa. Esse jogo de memória podia muito bem tornar Divinas Divas um documentário de espectros, sobre os espaços entre as imagens e arquivos, como na tradição Eduardo Coutinho. No entanto, o aspecto mais fantasmagórico no filme acaba sendo de longe o próprio voice over de Leandra Leal, que se coloca como um olhar nostálgico, de uma observação afetiva e discreta, sobre as mulheres e travestis que retrata.

12/06/2017

Tour à distância por tempos sombrios


Por mais que toda geração sempre se imagine a melhor e última, cada época tem sua própria percepção de tempo. Mulher-Maravilha (Patty Jenkins), no caso, começa nos dias de hoje com a personagem-título olhando para uma fotografia dos tempos da Segunda Guerra Mundial, e toda a narrativa a seguir conta a história por trás da imagem. Dar vida, drama e dimensão a uma imagem estática é um gesto bastante simples e comum, mas Patty Jenkins se encanta pelo revisionismo claramente olhando do presente - o filme vai pegar uma ambientação dos anos 40 e repensá-la totalmente por uma sensibilidade dos anos 2010.

Mulher-Maravilha reescreve a História pela ótica do ativismo digital e de formas artificiais voláteis, manipuláveis, uma expressão reconhecidamente típica dos dias de hoje. Mesmo o tão comentado viés girl power, se dá por uma personagem construída como um deus ao mesmo tempo mitológico e sintético; a Amazona é uma figura imbatível e amorosa que sai pelos cenários simulados expondo sua facilidade de lidar com matérias (balas, corpos de homens atacando-a, Igrejas de concreto) enquanto impressiona e transforma os habitantes de uma realidade virtual presa ao tempo que eles pertencem. O empoderamento se faz pela imaginação, por uma noção de espaço-tempo irreverente, e a reconstrução histórica é feita inteiramente de clichês sobre guerra e o patriarcado, indiferente a detalhes ou texturas mais imersivas.

23/05/2017

Horror de acessório


É uma espécie de consenso na crítica americana que Perdido em Marte foi o verdadeiro revival considerável/redondinho de Ridley Scott nesse "gênero que o consagrou" (etc etc) que é a ficção científica. Pode até ser, mas agora mais do que nunca eu ainda acredito que o que ele  fez com sua própria franquia Alien nesses anos aí, por bem ou por mal, é algo bem mais pessoal da parte dele - embora, ok, tanto Prometheus quanto esse Alien: Covenant sejam filmes essencialmente frustrantes.

Todo mundo meio que está de saco cheio, nesse universo dos sci-fi, de tripulantes espaciais supostamente profissionais fazendo burradas inacreditáveis. Mas, passada a indignação com a preguiça do roteirista, é bem irônico pensar a relação que a franquia tem com esses clichês - O Oitavo Passageiro foi o filme que lançou o terror espacial como gênero de verdade. E o mais curioso é como a nuance mais assustadora da obra-prima de 1979 era o desconhecido e o silêncio angustiante que cercavam a história. Nós recebíamos algumas informações, a fantasia era suficientemente bem situada, mas ainda assim o mistério e o silêncio eram a lei maior. Então, por que justamente lançar um prequel disso? Como levar uma intenção dessas a sério, ou pior, fazer os outros levarem-na a sério?

Ridley Scott provavelmente concorda comigo que isso tudo é besteira, porque a forma como ele leva alguns dos elementos mais primários do gênero nas coxas, ou então reduzidos ao mínimo de esforço criativo - coisas como o contexto da missão espacial, a relação entre os tripulantes, suas formas idiotas de resolver problemas em meio ao caos (tudo baseado numa ideia plausível de que seres humanos ficam impulsivos durante emergências, só que levada para um nível bem duvidoso de "impulsividade") - é exatamente a pose de quem não vê muita vida nos restos que sobraram desse universo, ressuscitado por uma premissa posta em prática apenas porque ela tem espaço no mercado.


Eu iria até além - Scott não só está pouco preocupado com os rumos da franquia Alien, ele está pouco preocupado com seres humanos num geral. Todos os discursos filosóficos em Covenant e Prometheus pra mim convergem numa coisa só - homens são mesquinhos, se veem como deuses e acham que têm controle total sobre a natureza. É puro niilismo, enfim, e se tem uma coisa na qual Covenant é melhor do que o reboot de 2012 é explorar essa misantropia como motor e finalidade mestra da narrativa. O filme respira brutalidade, tanto nos exageros centrados na figura do androide interpretado por Michael Fassbender (finalmente protagonista da coisa) quanto na violência cada vez mais apoiada no choque visual e na destruição sentida de corpos. Inclusive, a própria cenografia, fator que a câmera de Ridley sempre foi especialista em destacar, exala um obscurantismo bastante inquietante. Esse Alien novo não sente culpa nenhuma em cumprir expectativas populares de uma maneira esquisita, torta, teimosa, com vários sorrisos cínicos espalhados em meio a ideias visuais imediatas, e o filme consegue integrar isso às viradas e diálogos com bastante paciência.

06/05/2017

Pop rock pelas estrelas


Numa das melhores sequências de Guardiões da Galáxia - Vol. 2, o bebê Groot sai correndo aos gritos atrás de um dos bandidos que anteriormente havia agredido e zombado da criatura, derruba o agressor e joga-o de uma altura provavelmente elevadíssima. A cena é ao mesmo tempo hilária, catártica e chocante: "Aquele filhote de árvore mágica acabou de matar alguém por vingança pessoal?"

Pode até parecer bizarro, mas nesse momento James Gunn foi ao cerne desse gênero chamado "filme de super-herói" - as fantasias de poder, aqueles momentos em que o oprimido se levanta e descobre que pode contra seus inimigos. É por isso que esse tipo de filme acabou fazendo tanto sucesso na cultura pop; não por um fascínio coletivo por um "estágio biológico elevado do homem", ou alguma crença mais religiosa. Cinema de super-herói se tornou o que se tornou porque o que jovens de todo tipo sempre quiseram ver era Tony Stark virando para a imprensa e dando um discurso sarcástico contra tudo e contra todos, e nós sabíamos que ele não estava fodido porque, afinal, ele era o Homem de Ferro. E é assim desde que Bryan Singer lançou seu X-Men com os estudantes marginalizados e rebeldes tendo que salvar o mundo e ainda assim lidar com a rejeição diariamente.

26/04/2017

Vagando rumo à essência


O velho interesse de Jim Jarmusch por linguagens, culturas e imaginários coletivos em trânsito constante faz com que seu último filme pareça uma lição de moral bem óbvia. Talvez até seja, afinal, é o conto da vida banal de um artista peculiar e a identificação entre ele e o cineasta que o criou é bem nítida: Desde o início Paterson é uma declaração de princípios.

Ainda assim, há algo de muito sedutor ali que vai além do elogio à criatividade, e por isso faz mais sentido para mim observar Paterson como um filme sobre essências. Não só pela simplicidade da abordagem temática, mas pela impressão latente de que há um universo oculto por trás daqueles simbolismos, e a linguagem visual de Jarmusch delineia bem isso - a cidade e seus personagens são tão fabulísticos quanto as palavras escritas pelo poeta interpretado por Adam Driver. Há algo no ar, um fluxo de coisas que existem ideais em alguma dimensão por aí, e o artista vai selecionando as essências que consegue sentir. Quando Jarmusch sobrepõe o ônibus andando pela cidade às imagens de um rio correndo, a gente entende perfeitamente como a imaginação do poeta funciona.