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23/10/16

Quando o tempo (no cinema) para


Geralmente quase ganhar um Oscar acaba trazendo uma virada brusca na carreira de uma pessoa. Não foi diferente com Richard Linklater. Na verdade, depois de um filme de três horas filmado ao longo de 12 anos, o que ele fez foi justamente voltar à simplicidade dos seus primeiros filmes. O que pouca gente esperava.

Jovens, Loucos e Mais Rebeldes!! é meio que uma "continuação de espírito" da obra-prima do diretor, Dazed and Confused, e acabou até recebendo nome de continuação. Mais uma vez Linklater busca fazer seu Clube dos Cinco pessoal, uma carta apaixonada de uma geração para outra, e o resultado, por mais que repetitivo no início, termina contagiante. A chave, pra mim, é que desta vez a questão da identidade, que sempre foi essencial nos filmes dele, vira uma grande brincadeira na qual os personagens vão trocando de roupagem só para se adaptar entre uma festa e outra, e até mesmo invertendo papéis de vez em quando. Pode até parecer que isso seja só parte de uma piada sobre grupinhos de universidade, mas o tema "personalidade" é tão forte aqui que eu não posso deixar de ignorar o quanto Linklater se propõe a uma certa iconoclastia do jovem em formação.

10/09/16

Políticas à parte


Recorde de gritos de "Fora Temer" nos cinemas brasileiros, Aquarius não deixa de ser um filme muito mais simpático a quem concorda com o discurso corrente da nossa esquerda nesses últimos anos. Acaba me lembrando muito como Tropa de Elite, principalmente o primeiro, era conscientemente o último grande filme espiritual da Retomada - em outras palavras, saudoso de uma era governada pela direita.

Ao mesmo tempo, porém, Kléber Mendonça Filho expõe uma visão bastante singular que remete muito a gênios classicistas como Howard Hawks e John Carpenter: A ideia de cinema não como um argumento, mas como refúgio pessoal, como um lugar onde figuras cotidianas repousam, meditam e depois lutam pelo que acreditam. O Recife de Aquarius se constrói junto com as relações afetivas que o filme vai mostrando, aos poucos nos situando no universo pessoal da protagonista, e assim também aos poucos deixando sua ideologia reger os conflitos. Nesse sentido é menos um filme sobre "o Brasil de hoje" do que sobre manter ideais num momento político tão específico.

10/08/16

Mamãe acabou de matar um cara


Ninguém duvida que "Bohemian Rhapsody" é um dos maiores hinos do rock setentista. Mesmo assim, eu não vi ninguém chiando pela forma como a música foi usada nesse último "controverso" filme de super-heróis de Hollywood, Esquadrão Suicida (David Ayer).

Quer dizer, um filme que transforma em realidade as fantasias de poder mais doentias de homens/garotos reclusos da forma mais condescendente e clichê o possível me parece exatamente o contrário da ironia proposta pelo Queen, que encerra todo um fluxo de consciência burlesco e turbulento com um melancólico e solitário "Nothing really matters". Não estou exagerando: Chega um momento em Esquadrão Suicida no qual a chefe negra cuzona mete balas em toda sua equipe do nada só para esconder um erro seu, e o filme segue em frente sem dramatizar aquilo nem sugerir um humor negro. E não, não tem nada a ver com "crítica à burocracia americana", porque tudo nesse filme é um cínico e grande "e se?" que não faz sentido nenhum, nem no mundo real, nem neste mundo fantasioso interligado à moda Vingadores que a DC está tentando formular.

Ok, chega de Esquadrão Suicida. Vou contar uma história.

12/06/16

Terror de cartoon


Eu já gostava de enxergar tanto The Conjuring quanto os dois primeiros Insidious  (todos dirigidos por James Wan) como simulacros cartunescos de um gênero tão desgastado como o do exorcismo. E isso fica ainda mais evidente nesse Invocação do Mal 2 na medida em que o orçamento mais encorpado significa somente que Wan vai investir mais na extravagância da cenografia e das criaturas, e menos na aparência realista de tudo isso. É como se assistíssemos, de fato, um conto mentiroso de terror para se ouvir com a família, tão sofisticado quanto explicitamente absurdo. O filme todo passeia nessa linha sempre atrás do espetáculo bem dosado, e nesse caso quanto mais gráfico e modernoso, melhor - coisa que nem sempre dá certo nas mãos de Wan, mas desta vez há ideias boas o suficiente para controlar as mais bestas (ao contrário de Sobrenatural: Capítulo 2, que preferia recorrer sempre à hipérbole). Até dá para dizer que as influências vêm de filmes mais clássicos, só que ainda assim The Conjuring 2 está mais para uma reimaginação pop bem filmada, com a atmosfera, a catarse, os clichês, os furos de roteiro e tudo que isso dá direito. Num ano tão desanimado pro cinemão americano, a gente meio que precisava de um filme que mistura cheio de convicção A Hora do Pesadelo e O Exorcista com uma vibe de sessão pipoca.

07/05/16

Coisas pop


Capitão América: Guerra Civil começa muito mal, se excedendo nas informações verbais e cenas de ação apressadas assim como O Soldado Invernal fazia, mas quanto mais próximo do clímax a gente fica, mais o filme vai se revelando como a melhor coisa que a Marvel já lançou desde Os Vingadores. É ao mesmo tempo uma meditação culposa sobre essa necessidade que as narrativas da Marvel têm de serem cada vez mais grandiosas e destrutivas, e um belo de um "ensemble" nerd ao próprio estilo dos Vingadores. O forte desses filmes sempre foi a relação inter-pessoal entre esses personagens icônicos, e Guerra Civil investe um tempo ainda maior humanizando esse monte de super-herói, o que deixa tudo bem mais envolvente e dramático no final.

Só é uma pena que cagaram no vilão. Pra ser bem sincero o personagem de Daniel Brühl quase bota tudo a perder. Ainda bem que o conflito entre o Capitão América e o Homem de Ferro dá certo o bastante pra sustentar. Até que é legal acompanhar esses filmes de super-heróis como se fossem uma série de TV que já passou da hora de terminar - é sempre aquela sensação de alívio quando funciona realmente, mesmo que aos tropeços.

29/03/16

Deuses de mentirinha


De um terceiro filme de super-herói dirigido por Zack Snyder (e uma quarta adaptação de HQs) podíamos esperar uma reimaginação ultra-genérica como Homem de Aço ou uma reconstrução romantizada como Watchmen. No fim das contas, Batman vs. Superman tá mais pra Homem-Aranha 3.

Não por causa dos vilões ridículos ou da falta de criatividade que se vê no filme do aracnídeo. É evidente que Batman vs. Superman tem boas ideias, entre elas a abordagem de Superman como um deus grego que se alterna entre os extremos da opinião pública - exatamente como qualquer figura popular que apela para sentimentalismos (claro, Superman não faz isso por querer). A religiosidade já era um elemento forte em Homem de Aço, mas agora é muito mais fácil enxergar esse herói como um personagem, alguém que reage a tudo que lhe impõem. Falando em personagem, finalmente, temos um Batman de fato obscuro e odioso. Enquanto Christian Bale estava sempre alternando personalidades de propósito (ele tinha que ser ao mesmo tempo o estrategista, o órfão bolado, o bilionário ostentação e o amante) sem formar uma, Ben Affleck busca simplicidade, um Bruce Wayne que é "um cara" antes de qualquer trauma de infância ou função narrativa - e que também parece se equiparar a um deus, só que desta vez apenas por uma força de vontade absurda, que perde a cabeça por ideais e atropela várias vezes o senso de ética.


Enfim, o que Superman vs. Batman compartilha com Homem-Aranha 3 é a visão do que seria simplesmente "um bom filme de super-heróis": Extravagante, caótico, fantasioso, e extremamente visual. Algumas dessas características a gente ainda vê em outros filmes de super-herói, como o último Vingadores, mas neste o tom ainda é de uma aventura carismática, na qual charme e bom humor são prioridade. A Origem da Justiça não está interessado em "charme"; a fantasia precisa estar no seu limite, precisa atingir o espectador de qualquer jeito. E com esse "de qualquer jeito", é que surgem os problemas mais evidentes do filme.