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23/05/2017

Horror de acessório


É uma espécie de consenso na crítica americana que Perdido em Marte foi o verdadeiro revival considerável/redondinho de Ridley Scott nesse "gênero que o consagrou" (etc etc) que é a ficção científica. Pode até ser, mas agora mais do que nunca eu ainda acredito que o que ele  fez com sua própria franquia Alien nesses anos aí, por bem ou por mal, é algo bem mais pessoal da parte dele - embora, ok, tanto Prometheus quanto esse Alien: Covenant sejam filmes essencialmente frustrantes.

Todo mundo meio que está de saco cheio, nesse universo dos sci-fi, de tripulantes espaciais supostamente profissionais fazendo burradas inacreditáveis. Mas, passada a indignação com a preguiça do roteirista, é bem irônico pensar a relação que a franquia tem com esses clichês - O Oitavo Passageiro foi o filme que lançou o terror espacial como gênero de verdade. E o mais curioso é como a nuance mais assustadora da obra-prima de 1979 era o desconhecido e o silêncio angustiante que cercavam a história. Nós recebíamos algumas informações, a fantasia era suficientemente bem situada, mas ainda assim o mistério e o silêncio eram a lei maior. Então, por que justamente lançar um prequel disso? Como levar uma intenção dessas a sério, ou pior, fazer os outros levarem-na a sério?

Ridley Scott provavelmente concorda comigo que isso tudo é besteira, porque a forma como ele leva alguns dos elementos mais primários do gênero nas coxas, ou então reduzidos ao mínimo de esforço criativo - coisas como o contexto da missão espacial, a relação entre os tripulantes, suas formas idiotas de resolver problemas em meio ao caos (tudo baseado numa ideia plausível de que seres humanos ficam impulsivos durante emergências, só que levada para um nível bem duvidoso de "impulsividade") - é exatamente a pose de quem não vê muita vida nos restos que sobraram desse universo, ressuscitado por uma premissa posta em prática apenas porque ela tem espaço no mercado.


Eu iria até além - Scott não só está pouco preocupado com os rumos da franquia Alien, ele está pouco preocupado com seres humanos num geral. Todos os discursos filosóficos em Covenant e Prometheus pra mim convergem numa coisa só - homens são mesquinhos, se veem como deuses e acham que têm controle total sobre a natureza. É puro niilismo, enfim, e se tem uma coisa na qual Covenant é melhor do que o reboot de 2012 é explorar essa misantropia como motor e finalidade mestra da narrativa. O filme respira brutalidade, tanto nos exageros centrados na figura do androide interpretado por Michael Fassbender (finalmente protagonista da coisa) quanto na violência cada vez mais apoiada no choque visual e na destruição sentida de corpos. Inclusive, a própria cenografia, fator que a câmera de Ridley sempre foi especialista em destacar, exala um obscurantismo bastante inquietante. Esse Alien novo não sente culpa nenhuma em cumprir expectativas populares de uma maneira esquisita, torta, teimosa, com vários sorrisos cínicos espalhados em meio a ideias visuais imediatas, e o filme consegue integrar isso às viradas e diálogos com bastante paciência.

06/05/2017

Pop rock pelas estrelas


Numa das melhores sequências de Guardiões da Galáxia - Vol. 2, o bebê Groot sai correndo aos gritos atrás de um dos bandidos que anteriormente havia agredido e zombado da criatura, derruba o agressor e joga-o de uma altura provavelmente elevadíssima. A cena é ao mesmo tempo hilária, catártica e chocante: "Aquele filhote de árvore mágica acabou de matar alguém por vingança pessoal?"

Pode até parecer bizarro, mas nesse momento James Gunn foi ao cerne desse gênero chamado "filme de super-herói" - as fantasias de poder, aqueles momentos em que o oprimido se levanta e descobre que pode contra seus inimigos. É por isso que esse tipo de filme acabou fazendo tanto sucesso na cultura pop; não por um fascínio coletivo por um "estágio biológico elevado do homem", ou alguma crença mais religiosa. Cinema de super-herói se tornou o que se tornou porque o que jovens de todo tipo sempre quiseram ver era Tony Stark virando para a imprensa e dando um discurso sarcástico contra tudo e contra todos, e nós sabíamos que ele não estava fodido porque, afinal, ele era o Homem de Ferro. E é assim desde que Bryan Singer lançou seu X-Men com os estudantes marginalizados e rebeldes tendo que salvar o mundo e ainda assim lidar com a rejeição diariamente.

26/04/2017

Vagando rumo à essência


O velho interesse de Jim Jarmusch por linguagens, culturas e imaginários coletivos em trânsito constante faz com que seu último filme pareça uma lição de moral bem óbvia. Talvez até seja, afinal, é o conto da vida banal de um artista peculiar e a identificação entre ele e o cineasta que o criou é bem nítida: Desde o início Paterson é uma declaração de princípios.

Ainda assim, há algo de muito sedutor ali que vai além do elogio à criatividade, e por isso faz mais sentido para mim observar Paterson como um filme sobre essências. Não só pela simplicidade da abordagem temática, mas pela impressão latente de que há um universo oculto por trás daqueles simbolismos, e a linguagem visual de Jarmusch delineia bem isso - a cidade e seus personagens são tão fabulísticos quanto as palavras escritas pelo poeta interpretado por Adam Driver. Há algo no ar, um fluxo de coisas que existem ideais em alguma dimensão por aí, e o artista vai selecionando as essências que consegue sentir. Quando Jarmusch sobrepõe o ônibus andando pela cidade às imagens de um rio correndo, a gente entende perfeitamente como a imaginação do poeta funciona.

07/04/2017

Marketing e fantasia


Para um cineasta que ficou tantos anos nas sombras da má recepção de público e crítica, até virar chacota de cinéfilo, M. Night Shyamalan é um diretor bem confiante. E agora resolveu até expandir seu universo com uma surpresa final sugerindo certos ganchos. Muitos fãs da fase inicial do cineasta estão empolgados, mas muita coisa em Fragmentado me faz pensar que o filme força um olhar engrandecedor sobre si mesmo.

Em primeiro lugar, os pilares do velho estilo de Shyamalan estão na sua forma mais seca aqui: Atmosfera, controle formal, isolamento, tema sobrenatural, plot twist. Toda a exploração de sentimentos culturais e inserções metalinguísticas que haviam em A Visita, A Vila, Corpo Fechado, e mesmo em Sinais, não se faz mais presente. Fragmentado é Shyamalan no modelo mais clássico-narrativo - o que não seria um problema, se o indiano fosse de fato um ótimo contador de histórias. Infelizmente, as gordurinhas de roteiro são muitas, como por exemplo as menções ridiculamente repetitivas à suposta reviravolta final e a subtrama envolvendo a psicóloga que só serve para expôr com verborragia a mitologia sci-fi que caracteriza o transtorno do vilão, sem acrescentar muita coisa dramaticamente. O ritmo se perde no meio de tudo isso; Fragmentado é desesperado demais por ser um hit pop cheio de punchlines dentro de tendências respeitadas da Hollywood pós-Vingadores, e seus artifícios para tanto são bem duvidosos.

05/03/2017

Blackness, uma história de amor


Kendrick Lamar começa seu penúltimo e mais conceitual álbum, To Pimp a Butterfly, com um sample do hino soul "Every N*gga is a Star" crescendo e crescendo até ser cortado pela batida psicodélica e funky do Thundercat. Em Moonlight - Sob a Luz do Luar, esse mesmo hino soul estabelece o clima do filme antes de ser cortado pelo som ostensivo do motor do carro de um dos personagens. Mesmo que o filme tenha sido divulgado mais pelo "realismo social" diante do seu concorrente no Oscar, La La Land, existe desde esse momento inicial uma musicalidade bem demarcada em Moonlight, talvez até um pouco exibida.

A gente sabe que o hip hop e o R&B tomaram a frente na representatividade da cultura negra dessa parte do globo, coisa que nenhum gênero ou cenário do cinema americano alcançou assim ainda. É interessante notar como essa ideia de detalhar a trajetória de um jovem negro com um olhar nem tão de dentro, e nem tão de fora, ou os dois ao mesmo tempo, é uma premissa que o próprio Kendrick já explorou muitas vezes em seus discos, buscando um novo tipo de empatia, além das questões sociais propriamente ditas - ano passado Beyoncé também fez coisa parecida. O cinema ainda estava muito preso às visões sociais cirúrgicas de um Matador de Ovelhas, ou às caricaturas vingativas do blaxploitation. Barry Jenkins parece ter encontrado na musicalidade uma expressão não necessariamente nova, mas diferente dentro desse contexto - a construção de uma pequena epopeia negra cheia de elipses, repetições poéticas, memórias, e câmeras girando em torno de corpos gregos azuis.

23/02/2017

Aquela memória confusa


Aliados não é a primeira vez que Robert Zemeckis tenta encaixar um final melodramático e moralizante num filme que parecia ir num outra direção - O Náufrago e O Voo estão aí pra provar. É verdade que isso deixa um gosto ruim na boca, mas prefiro considerar esse final como algo à parte, mal encaixado - porque se ignoramos isso, Aliados é um dos filmes mais interessantes dessa temporada de prêmios (e também dos mais subestimados).

Como um legítimo contemporâneo de Spielberg e George Lucas, Zemeckis sabe que deve muito à trajetória do cinemão americano, e então a trama de Segunda Guerra ganha um peso extra com toda a "consciência cinéfila" do diretor. Apesar dos truques digitais e da violência mais explícita e moderna, o classicismo de Aliados não tem aquela conjuntura pós-moderna e flexível de La La Land - é um estilo retrô que realmente nada numa espécie de tempo perdido, elegante, ostensivo, atmosférico e, ainda assim, distante. As cenas em Casablanca são como as memórias parisienses de Humphrey Bogart e Ingrid Bergman no próprio clássico da Warner.