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23/02/2017

Aquela memória confusa


Aliados não é a primeira vez que Robert Zemeckis tenta encaixar um final melodramático e moralizante num filme que parecia ir num outra direção - O Náufrago e O Voo estão aí pra provar. É verdade que isso deixa um gosto ruim na boca, mas prefiro considerar esse final como algo à parte, mal encaixado - porque se ignoramos isso, Aliados é um dos filmes mais interessantes dessa temporada de prêmios (e também dos mais subestimados).

Como um legítimo contemporâneo de Spielberg e George Lucas, Zemeckis sabe que deve muito à trajetória do cinemão americano, e então a trama de Segunda Guerra ganha um peso extra com toda a "consciência cinéfila" do diretor. Apesar dos truques digitais e da violência mais explícita e moderna, o classicismo de Aliados não tem aquela conjuntura pós-moderna e flexível de La La Land - é um estilo retrô que realmente nada numa espécie de tempo perdido, elegante, ostensivo, atmosférico e, ainda assim, distante. As cenas em Casablanca são como as memórias parisienses de Humphrey Bogart e Ingrid Bergman no próprio clássico da Warner.

07/02/2017

"É manjado, mas eu gostei"


Volta e meia eu passo a considerar The Warriors - Os Selvagens da Noite como um dos melhores filmes de todos os tempos. Filho da Nova Hollywood, mas mais subestimado do que outros do movimento, Walter Hill fez uma aventura que sintetiza cheia de energia e estilo a vida urbana nos anos 80 - os guerreiros dos metrôs, parques, bancas e ruelas de Nova York viviam ali uma perseguição existencial, em conflito com a própria noite. É uma grande fantasia pop e descomplicada, talvez com mais sinais dos tempos do que eu consigo assumir, mas sua força e atmosfera são inegáveis.

Walter Hill não tem uma história muito feliz como cineasta, já que de uma fase de ouro nos anos 70/80 do cinema de ação, seus filmes foram aos poucos decaindo em vigor e popularidade. O que mudou mais, na verdade, não foi ele, mas a noção de "descolado" no cinema americano - quando surgiram os irmãos Coen, Tarantino, Scorsese e toda a leva de irônicos pós-modernos auto-conscientes, a franqueza "blues rock" e inocente de Walter Hill se perdeu no tempo. E aí filmes como O Limite da Traição, talvez um dos seus mais fracassados, vinham como um brilhante atestado de ópio sobre a Nova Hollywood como a conhecemos - Joe Dante também teve essa trajetória.

Estou dizendo tudo isso porque se tem um cineasta que eu lembrei assistindo A Qualquer Custo, um dos indicados a melhor filme no Oscar que está em cartaz agora, foi Walter Hill. A ideia de um cinema descomplicado e pessoal ao mesmo tempo não é exatamente exclusiva dele, mas toda a construção de mundo, as ligações pragmáticas entre os personagens que aos poucos tornam-se mais profundas, a temática bem especificada e, principalmente, a convicção como cinema de gênero remetem muito a ele. Estamos falando de personagens arquetípicos, bem reconhecíveis, e o fluxo de tiradas cômicas está sempre pronto para aliviar o peso excessivo das ideias dramáticas. É sempre estranho quando um filme desses está no Oscar - a embalagem é bem mais do tipo de coisa que a gente vai assistir num Tela Quente daqui a 20 anos.

29/01/2017

Tons de tragédia

Quatro dos indicados ao Oscar de melhor filme estão em cartaz em São Paulo, e os dois últimos que vi são bem curiosos: Manchester à Beira-Mar e Até o Último Homem. Ambos tratam de histórias que lidam com a relação de um ser humano com a tragédia. 

No de Kenneth Lonergan, um núcleo familiar bem estabelecido se desenrola em memórias de culpa, luto e um homem preso em sua própria consciência moral. No de Mel Gibson, a violência do homem é devastadora e inevitável, e o verdadeiro herói é quem se sacrifica naquele inferno sem de fato causar violência - sobrevivendo simplesmente por acreditar em Deus.


Manchester à Beira-Mar equilibra-se numa corda bamba o tempo todo - como representar a pior tragédia que pode acontecer com um homem, sem explorá-la? O filme deixa o olhar de Casey Affleck preenchendo todo o sentimento de uma terra devastada, e vai observando o microcosmo social em torno dele com uma delicadeza brilhante. Cada situação nessa história pode flutuar entre o constrangimento, a melancolia e o puro horror, e como Lonergan encontra o tom certo, nem tão leve e nem tão moral, me deixou absolutamente engolido pelo filme.

27/01/2017

Algumas notas sobre aquela polêmica


Li alguns comentários sobre apropriação cultural em La La Land, e embora entenda as críticas, eu acho seriamente que isso é um problema intrínseco a Hollywood de várias formas, e não só a qualquer musical que resolva colocar gente branca explorando o jazz com os negros logo atrás deles - e eu também duvido que qualquer um que resolvesse ressuscitar um gênero tão simbólico da nostalgia cinéfila americana fosse fazer diferente. Branquitude nesse nível é um negócio que tem muito mais presença no cinema do que a gente imagina, e La La Land apenas teve a sorte e o azar de ter uma visibilidade gigantesca - e a participação maciça de negros coadjuvantes no filme deve ter sido o que lembrou algumas pessoas de que jazz é música negra em raiz e coração, coisa que o personagem de Ryan Gosling mal menciona.  No entanto, sejamos mais espertos: Chicago do Rob Marshall também tem isso, filmes do Scorsese com ruas novaiorquinas sem protagonistas negros também, e digo mais, Woody Allen sempre foi um cara que assumia uma posição de sabedor mestre do jazz nos seus filmes, quase como um "white savior".

Nada disso justifica o que ocorre no filme, claro, e é por isso que as críticas são válidas, mas de preferência num tom mais consciente do "quadro geral" do que o tom que eu geralmente encontrava nos comentários que li. O lance, também, é que La La Land não leva tão a sério assim os discursos de Ryan Gosling a ponto dele ser o "herói branco" no final, já que Emma Stone e John Legend estão sempre fazendo um contrabalanço a suas ideias - um texto que fala melhor disso aqui. Então a apropriação cultural existe de uma maneira leve e não mais reacionária do que outros filmes aclamados por aí (inclusive por mim).

13/01/2017

Todo aquele jazz


Às vezes o mundo é previsível: La La Land é exatamente o "neo-musical" que se podia esperar de um cineasta novo que curte jazz e filmes clássicos - meio anacrônico, meio didático, meio exibido, e dotado de uma inquietude determinante.

Damien Chazelle sabe jogar o jogo da indústria, e ressuscitou a estética clássica, mais teatral, do gênero (ou seja, esqueçam as caricaturas pop do Baz Luhrmann) não simplesmente emulando Vincente Minnelli, Gene Kelly e outros nomes da Velhíssima Hollywood que criou essa estética, enfim, mas adaptando as ideias do francês Jacques Demy, que na nouvelle vague dos anos 60 também relia os musicais hollywoodianos - só que em busca de um verdadeiro olhar encantado sobre o cotidiano, e as fantasias melódicas sendo injetadas num complicado mundo realista. Demy fazia intercâmbios entre delírio e dia-a-dia, deixava os personagens dialogarem com o cinema e a música, e construía um novo sentido além das idealizações americanas. La La Land não reinventa, mas aproveita do conceito certo: De que outra forma seria possível fazer um musical de raiz que tente conversar com o público de hoje?

09/01/2017

Com o pé direito

Não deve ser surpresa por aqui que o filme que mais estou esperando pra esse início de 2017 é o novo do Martin Scorsese, Silence - um projeto que ele vem tentando dar vida há anos, e que evidentemente lida com o lado mais católico do diretor novaiorquino. Como é sempre bom ir massageando expectativas, o primeiro filme que resolvi assistir esse ano foi um trabalho um pouco esquecido dele, mas que tem seus fãs fieis: A Época da Inocência.


E o filme é genial. Scorsese sempre teve dois lados que dialogam só de vez em quando - o lado nostálgico e cinéfilo, preocupado com a obsessão do homem por memórias e imagens, e o lado violento e sadicamente moralista sobre o fascínio no pecado (no caso dos filmes de máfia dele, o pecado tá principalmente na luxúria, e mesmo nas brincadeiras não deixa de haver um olhar católico transbordando ali). A Época da Inocência deve ser o mais bem-sucedido de todos os filmes dele que flertam mais com o lado nostálgico: A estética classicista vai sufocando o espectador e o protagonista num universo que aos poucos se revela tão ilusório quanto indestrutível - o círculo da vida burguesa que se apoia sobre tantas regras e também faz seus "habitantes" pensarem que estão no controle, quando não estão.