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10/09/16

Políticas à parte


Recorde de gritos de "Fora Temer" nos cinemas brasileiros, Aquarius não deixa de ser um filme muito mais simpático a quem concorda com o discurso corrente da nossa esquerda nesses últimos anos. Acaba me lembrando muito como Tropa de Elite, principalmente o primeiro, era conscientemente o último grande filme espiritual da Retomada - em outras palavras, saudoso de uma era governada pela direita.

Ao mesmo tempo, porém, Kléber Mendonça Filho expõe uma visão bastante singular que remete muito a gênios classicistas como Howard Hawks e John Carpenter: A ideia de cinema não como um argumento, mas como refúgio pessoal, como um lugar onde figuras cotidianas repousam, meditam e depois lutam pelo que acreditam. O Recife de Aquarius se constrói junto com as relações afetivas que o filme vai mostrando, aos poucos nos situando no universo pessoal da protagonista, e assim também aos poucos deixando sua ideologia reger os conflitos. Nesse sentido é menos um filme sobre "o Brasil de hoje" do que sobre manter ideais num momento político tão específico.

10/08/16

Mamãe acabou de matar um cara


Ninguém duvida que "Bohemian Rhapsody" é um dos maiores hinos do rock setentista. Mesmo assim, eu não vi ninguém chiando pela forma como a música foi usada nesse último "controverso" filme de super-heróis de Hollywood, Esquadrão Suicida (David Ayer).

Quer dizer, um filme que transforma em realidade as fantasias de poder mais doentias de homens/garotos reclusos da forma mais condescendente e clichê o possível me parece exatamente o contrário da ironia proposta pelo Queen, que encerra todo um fluxo de consciência burlesco e turbulento com um melancólico e solitário "Nothing really matters". Não estou exagerando: Chega um momento em Esquadrão Suicida no qual a chefe negra cuzona mete balas em toda sua equipe do nada só para esconder um erro seu, e o filme segue em frente sem dramatizar aquilo nem sugerir um humor negro. E não, não tem nada a ver com "crítica à burocracia americana", porque tudo nesse filme é um cínico e grande "e se?" que não faz sentido nenhum, nem no mundo real, nem neste mundo fantasioso interligado à moda Vingadores que a DC está tentando formular.

Ok, chega de Esquadrão Suicida. Vou contar uma história.

12/06/16

Terror de cartoon


Eu já gostava de enxergar tanto The Conjuring quanto os dois primeiros Insidious  (todos dirigidos por James Wan) como simulacros cartunescos de um gênero tão desgastado como o do exorcismo. E isso fica ainda mais evidente nesse Invocação do Mal 2 na medida em que o orçamento mais encorpado significa somente que Wan vai investir mais na extravagância da cenografia e das criaturas, e menos na aparência realista de tudo isso. É como se assistíssemos, de fato, um conto mentiroso de terror para se ouvir com a família, tão sofisticado quanto explicitamente absurdo. O filme todo passeia nessa linha sempre atrás do espetáculo bem dosado, e nesse caso quanto mais gráfico e modernoso, melhor - coisa que nem sempre dá certo nas mãos de Wan, mas desta vez há ideias boas o suficiente para controlar as mais bestas (ao contrário de Sobrenatural: Capítulo 2, que preferia recorrer sempre à hipérbole). Até dá para dizer que as influências vêm de filmes mais clássicos, só que ainda assim The Conjuring 2 está mais para uma reimaginação pop bem filmada, com a atmosfera, a catarse, os clichês, os furos de roteiro e tudo que isso dá direito. Num ano tão desanimado pro cinemão americano, a gente meio que precisava de um filme que mistura cheio de convicção A Hora do Pesadelo e O Exorcista com uma vibe de sessão pipoca.

07/05/16

Coisas pop


Capitão América: Guerra Civil começa muito mal, se excedendo nas informações verbais e cenas de ação apressadas assim como O Soldado Invernal fazia, mas quanto mais próximo do clímax a gente fica, mais o filme vai se revelando como a melhor coisa que a Marvel já lançou desde Os Vingadores. É ao mesmo tempo uma meditação culposa sobre essa necessidade que as narrativas da Marvel têm de serem cada vez mais grandiosas e destrutivas, e um belo de um "ensemble" nerd ao próprio estilo dos Vingadores. O forte desses filmes sempre foi a relação inter-pessoal entre esses personagens icônicos, e Guerra Civil investe um tempo ainda maior humanizando esse monte de super-herói, o que deixa tudo bem mais envolvente e dramático no final.

Só é uma pena que cagaram no vilão. Pra ser bem sincero o personagem de Daniel Brühl quase bota tudo a perder. Ainda bem que o conflito entre o Capitão América e o Homem de Ferro dá certo o bastante pra sustentar. Até que é legal acompanhar esses filmes de super-heróis como se fossem uma série de TV que já passou da hora de terminar - é sempre aquela sensação de alívio quando funciona realmente, mesmo que aos tropeços.

29/03/16

Deuses de mentirinha


De um terceiro filme de super-herói dirigido por Zack Snyder (e uma quarta adaptação de HQs) podíamos esperar uma reimaginação ultra-genérica como Homem de Aço ou uma reconstrução romantizada como Watchmen. No fim das contas, Batman vs. Superman tá mais pra Homem-Aranha 3.

Não por causa dos vilões ridículos ou da falta de criatividade que se vê no filme do aracnídeo. É evidente que Batman vs. Superman tem boas ideias, entre elas a abordagem de Superman como um deus grego que se alterna entre os extremos da opinião pública - exatamente como qualquer figura popular que apela para sentimentalismos (claro, Superman não faz isso por querer). A religiosidade já era um elemento forte em Homem de Aço, mas agora é muito mais fácil enxergar esse herói como um personagem, alguém que reage a tudo que lhe impõem. Falando em personagem, finalmente, temos um Batman de fato obscuro e odioso. Enquanto Christian Bale estava sempre alternando personalidades de propósito (ele tinha que ser ao mesmo tempo o estrategista, o órfão bolado, o bilionário ostentação e o amante) sem formar uma, Ben Affleck busca simplicidade, um Bruce Wayne que é "um cara" antes de qualquer trauma de infância ou função narrativa - e que também parece se equiparar a um deus, só que desta vez apenas por uma força de vontade absurda, que perde a cabeça por ideais e atropela várias vezes o senso de ética.


Enfim, o que Superman vs. Batman compartilha com Homem-Aranha 3 é a visão do que seria simplesmente "um bom filme de super-heróis": Extravagante, caótico, fantasioso, e extremamente visual. Algumas dessas características a gente ainda vê em outros filmes de super-herói, como o último Vingadores, mas neste o tom ainda é de uma aventura carismática, na qual charme e bom humor são prioridade. A Origem da Justiça não está interessado em "charme"; a fantasia precisa estar no seu limite, precisa atingir o espectador de qualquer jeito. E com esse "de qualquer jeito", é que surgem os problemas mais evidentes do filme.

01/03/16

Statement


Ok, Spotlight levou o Oscar de melhor filme.

Entre os três favoritos (o vencedor, O Regresso e A Grande Aposta), esse deveria ser o menos chamativo. O que pode ser bom, já que o último filme vencedor do Oscar principal era o completo oposto: afetado, histriônico e meio arrogante - para o bem ou para o mal.

Então a Academia é flexível, tem gostos bem variados, e isso é ótimo, certo?

Eu tava lendo esse texto sobre "bom gosto" e como ele se forma, e que na verdade é um texto muito mais sobre a relação entre senso de ética e senso de estética (não que com um você automaticamente tem o outro - enfim, leia o texto). Me fez pensar rapidamente em: por que caralhos que o Oscar só escolhe filme nem tão bom assim?

Não pode ser mera coincidência, não pode ser só implicância minha (eu mesmo não esperava que Spotlight fosse levar), não é possível que só eu e alguns outros cinéfilos dispersos vejam assim.

Na verdade a principal culpada é a própria forma como a contagem de pontos atualmente é feita (com o preferential ballot), mas também a gente tem que pensar em todo o processo que leva à cerimônia - os prêmios antecessores, os festivais que acontecem durante o ano, as campanhas de marketing, os consensos da crítica... Há muita gente envolvida e que deve ser bastante consciente sobre o que pode ser considerado "esteticamente bom" para o cinema: só que também há muito interesse, mercado, auê fabricado, cartazes destacando nomes conhecidos e uma ou outra crítica positiva, e as ideias por trás dos filmes favoritos ao Oscar chegam nas nossas cabeças antes mesmo de vermos os filmes.