Páginas

08/10/2017

Jogo de visores


Difícil falar de um filme como Blade Runner 2049 sem notar como 2017 está se consolidando como um ano estranho e paradoxal para o cinema de estúdio: cheio de ideias fortes e projetos curiosos, mas raramente satisfazendo nas bilheterias. Pode-se falar do obviamente insano e comercialmente mal-sucedido mãe! de Darren Aronofsky, mas nem precisa ir muito longe quando se pensa nas provocativas duas horas e meia de Planeta dos Macacos: A Guerra. A continuação de Blade Runner aparece como um desses objetos esquisitos, barulhentos, que exclamam seu orçamento épico e suas ideias grandiosas mesmo que não exista um hype muito significativo por parte do público em torno do projeto. Um momento de auto-confiança exagerada entre os estúdios americanos, talvez, mas que me parece estar sendo bem aproveitado por alguns.

Denis Villeneuve, inclusive, assume aqui seu lado "full auteurship", dirigindo mais próximo do ar opressivo e alienígena de Sicario e O Homem Duplicado do que das sutilezas dramáticas e fabulísticas de A Chegada (um filme muito mais da personagem de Amy Adams), e expressando todo seu gosto por composições rígidas, cheias de postura e pontos estáticos - não podemos esquecer de como antes de falarmos mal dele em La La Land, Ryan Gosling era o grande "poser" de Hollywood em Drive, retomando aqui sua vocação de modelo pouco expressivo. Já me incomodei muito com essas coisas em outros filmes do diretor, mas Blade Runner 2049 se constrói todo sobre a ideia de autômatos - bem releitura de Phillip K. Dick mesmo, e que se encaixa bastante no material por essas excentricidades de estilo.

12/09/2017

That '80s show


Por mais soluções um pouco exageradas e ambíguas que Bingo - O Rei das Manhãs tenha, uma questão importante se instaura no filme: como olhar para uma década como a de 80, hoje? Daniel Rezende, o diretor, responde esgotando aquela eterna briga entre TV e cinema - ele estabelece uma dicotomia; onde as imagens de TV banalizam e higienizam, as imagens do cinema, "oficiais" dentro da lógica narrativa do filme, monstrualizam e sensibilizam com grandeza e alucinação. Seu palhaço Bingo se faz, na frente das câmeras, confundindo o imoral e o inocente, e atrás das câmeras é uma presença destruidora, agressiva.

Unindo os dois universos há toda a decoração possível de um sonho retrô - a trilha sonora em sintetizadores, a cafonice bem reverente, a sinceridade vulgar. Mesmo assim existe ali quase um campo de batalha estético, não só inscrito no roteiro (o homem vs. a máscara performática e midiática), como nas imagens, que se debatem entre a romantização (sensação inevitável quando a câmera captura tão sobriamente Vladimir Brichta, chapado, dizendo que Leandra Leal "deve sentir tesão no que faz") e a moralização (todo o enrosco dramático, no final, se assume mais como culpa do abuso de álcool).

07/08/2017

Era uma vez um deserto digital


Quando George A. Romero faleceu em julho, muito se falou sobre as ironias ácidas de seus clássicos de zumbi e sua enorme contribuição para a ideia de horror social que inclusive parece voltar a se fortalecer ultimamente (notícias bem recentes dizem que Corra, além das críticas positivas, foi o filme mais lucrativo de 2017 até agora, e Jordan Peele deixava bem evidente o espectro de A Noite dos Mortos-Vivos). Mas é importante lembrar, também, como Romero parecia um descendente de John Ford no "olhar moral" que dava a seus filmes, buscando um ponto de vista sem se restringir a subjetividades, mas também guiado por alguma instância de conceito e narrativa, uma responsabilidade. O diretor sobrevoava as situações dos seus filmes norteado por visões sólidas e formadas, apesar de não se gabar delas. Em outras palavras, ele estilizava mantendo um coração classicista.

Aparentemente, esse lado de Romero interessa a Matt Reeves mais do que seu senso de humor, visto que Planeta dos Macacos: O Confronto praticamente era uma releitura dos contos de zumbi do cineasta recém-falecido. Atrapalhava um pouco, sim, a falta de uma noção do absurdo, num filme ainda muito deslumbrado com suas referências e discussões (em texto e imagem) sobre intolerância, puxando para a frente do palco um contexto social sem uma conclusão tão surpreendente. Planeta dos Macacos: A Guerra, a continuação dessa trilogia-reboot, já parece mais bem resolvido nessa relação com o que lhe inspirou - mesmo com tantos espaços e temas diferentes, o filme é, da cabeça aos pés, uma fábula de faroeste. Os personagens buscam terras prometidas, vinganças e sofrem intervenções; a tragédia e a ironia andam juntas e já anunciadas, e é desta forma que a narrativa lida, enfim, com o absurdo de um pós-civilização iniciado por uma gripe símia.

07/07/2017

Uma parte já foi

2017 se tornou o ano em que eu consegui entrar numa faculdade para cursar cinema, e aí acho válido já fazer uma recapitulação do primeiro semestre. Além de toda a experiência pessoal de vir morar sozinho em Niteroi, há (ainda em processo, sempre) aquele ritual todo de repensar anos de cinefilia descompromissada por olhos, desta vez, de quem um dia vai depender financeiramente desse universo. Muita coisa nova sendo aprendida, muita coisa velha sendo redescoberta, tudo em diálogo constante enquanto o país vai pegando fogo e eu vou tendo que me virar no dia-a-dia.


Em relação aos filmes lançados em circuito no Brasil nesse período, o melhor, dos que eu consegui ver, foi Toni Erdmann. Acabou dividindo um pouco seu público, e foi um tanto subestimado como um filme sobre o universo corporativo (ainda que isso esteja bem equilibrado com o drama do choque de gerações), em como ele explora e constrói uma atmosfera detalhada em cima disso, longe de uma retórica fácil sobre crises econômicas robotizando as pessoas. Tudo avança naquele impulso John Cassavetes de abordar existências desesperadas num misto de melancolia, cotidiano e constrangimento, e eu adorei. Silêncio, do Scorsese, que eu também acabei não comentando aqui, foi outro muito bom, provavelmente o melhor dos americanos. Há todo um problema de ponto de vista que eu acho que o filme insere bem no seu procedimento narrativo, como se o olhar religioso fosse por si só, em essência, uma fonte de conflitos e de bases culturais. Não que essa visão seja sua finalidade maior - ao contrário, é sim um conto pessoal, de um homem cristão, sobre fé e espiritualidade. Com a tensão semiótica, fica bem mais interessante, claro.


Já entre os brasileiros, Martírio, aquele documentário de Vincent Carelli, foi o meu favorito. Investigação intensa, bem narrada e com um efeito acumulativo que integra não só seus próprios momentos, mas um peso histórico de genocídio velado. Das tentativas recentes de um cinema nacional político/explosivo, de reação a uma onda ultraconservadora, acho que esse foi mais longe que todos os outros. E ver no cinema foi de um desconforto maravilhoso.

29/06/2017

Ao vivo e em cores


Provavelmente diz muito sobre Divinas Divas, documentário dirigido por Leandra Leal abordando um grupo icônico de transformistas cariocas, que quanto mais o filme adentra em questões sombrias relacionadas à situação histórica de suas personagens, mais estas sorriem de volta pra câmera, e mais se avança num sentimento de orgulho: o que Leandra parece buscar é antes a sensação de uma resistência plena e natural do que um peso (político, social e temporal) que se estabelece sobre as figuras filmadas.

Desde o começo fica claro um território bastante pessoal no cenário do filme, quando Leandra, em off, explica que membros da sua família têm ligação com a comunidade LGBT há anos e, principalmente, com o Teatro Rival onde a câmera se instala a maior parte da narrativa. Esse jogo de memória podia muito bem tornar Divinas Divas um documentário de espectros, sobre os espaços entre as imagens e arquivos, como na tradição Eduardo Coutinho. No entanto, o aspecto mais fantasmagórico no filme acaba sendo de longe o próprio voice over de Leandra Leal, que se coloca como um olhar nostálgico, de uma observação afetiva e discreta, sobre as mulheres e travestis que retrata.

12/06/2017

Tour à distância por tempos sombrios


Por mais que toda geração sempre se imagine a melhor e última, cada época tem sua própria percepção de tempo. Mulher-Maravilha (Patty Jenkins), no caso, começa nos dias de hoje com a personagem-título olhando para uma fotografia dos tempos da Segunda Guerra Mundial, e toda a narrativa a seguir conta a história por trás da imagem. Dar vida, drama e dimensão a uma imagem estática é um gesto bastante simples e comum, mas Patty Jenkins se encanta pelo revisionismo claramente olhando do presente - o filme vai pegar uma ambientação dos anos 40 e repensá-la totalmente por uma sensibilidade dos anos 2010.

Mulher-Maravilha reescreve a História pela ótica do ativismo digital e de formas artificiais voláteis, manipuláveis, uma expressão reconhecidamente típica dos dias de hoje. Mesmo o tão comentado viés girl power, se dá por uma personagem construída como um deus ao mesmo tempo mitológico e sintético; a Amazona é uma figura imbatível e amorosa que sai pelos cenários simulados expondo sua facilidade de lidar com matérias (balas, corpos de homens atacando-a, Igrejas de concreto) enquanto impressiona e transforma os habitantes de uma realidade virtual presa ao tempo que eles pertencem. O empoderamento se faz pela imaginação, por uma noção de espaço-tempo irreverente, e a reconstrução histórica é feita inteiramente de clichês sobre guerra e o patriarcado, indiferente a detalhes ou texturas mais imersivas.