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13/01/2017

Todo aquele jazz


Às vezes o mundo é previsível: La La Land é exatamente o "neo-musical" que se podia esperar de um cineasta novo que curte jazz e filmes clássicos - meio anacrônico, meio didático, meio exibido, e dotado de uma inquietude determinante.

Damien Chazelle sabe jogar o jogo da indústria, e ressuscitou a estética clássica, mais teatral, do gênero (ou seja, esqueçam as caricaturas pop do Baz Luhrmann) não simplesmente emulando Vincente Minnelli, Gene Kelly e outros nomes da Velhíssima Hollywood que criou essa estética, enfim, mas adaptando as ideias do francês Jacques Demy, que na nouvelle vague dos anos 60 também relia os musicais hollywoodianos - só que em busca de um verdadeiro olhar encantado sobre o cotidiano, e as fantasias melódicas sendo injetadas num complicado mundo realista. Demy fazia intercâmbios entre delírio e dia-a-dia, deixava os personagens dialogarem com o cinema e a música, e construía um novo sentido além das idealizações americanas. La La Land não reinventa, mas aproveita do conceito certo: De que outra forma seria possível fazer um musical de raiz que tente conversar com o público de hoje?

09/01/2017

Com o pé direito

Não deve ser surpresa por aqui que o filme que mais estou esperando pra esse início de 2017 é o novo do Martin Scorsese, Silence - um projeto que ele vem tentando dar vida há anos, e que evidentemente lida com o lado mais católico do diretor novaiorquino. Como é sempre bom ir massageando expectativas, o primeiro filme que resolvi assistir esse ano foi um trabalho um pouco esquecido dele, mas que tem seus fãs fieis: A Época da Inocência.


E o filme é genial. Scorsese sempre teve dois lados que dialogam só de vez em quando - o lado nostálgico e cinéfilo, preocupado com a obsessão do homem por memórias e imagens, e o lado violento e sadicamente moralista sobre o fascínio no pecado (no caso dos filmes de máfia dele, o pecado tá principalmente na luxúria, e mesmo nas brincadeiras não deixa de haver um olhar católico transbordando ali). A Época da Inocência deve ser o mais bem-sucedido de todos os filmes dele que flertam mais com o lado nostálgico: A estética classicista vai sufocando o espectador e o protagonista num universo que aos poucos se revela tão ilusório quanto indestrutível - o círculo da vida burguesa que se apoia sobre tantas regras e também faz seus "habitantes" pensarem que estão no controle, quando não estão. 

23/12/2016

Os 20 melhores filmes de 2016

Pra começo de conversa, 2016 foi um ano agitado. Muitas ondas ultraconservadoras tomando conta pelo mundo todo e trazendo reações diversas, o que com certeza afeta bastante a cultura dos países que passam por isso. Os efeitos dessa turbulência toda vão ser mais sentidos daqui pra frente, mas esse ano já trouxe um gostinho. De qualquer forma, em relação a cinema, 2016 foi, digamos... desanimado. Muitas decepções e "filmes menores" de grandes diretores, pouca coisa sendo popularmente discutida, e aí acabou sendo bem mais legal acompanhar o universo da música - discos surpresas, polêmicas que vêm pro bem, revelações como Solange e Anderson .paak, etc. Ainda assim, o cinema teve suas (várias) coisas boas. Por isso, tá aí a lista.

De novo, vale tudo quanto é longa-metragem que foi pro circuito comercial de cinema ou pra VOD, streaming, locadoras, etc - enfim, disponibilizado comercialmente em território tupiniquim esse ano. As menções honrosas não estão em ordem de preferência, e boas festas pra todo mundo aí


20. Rua Cloverfield, 10 (Dan Trachtenberg)
Em 2016 Trachtenberg não só lançou esse que é o thriller B surtado do ano (apesar da grife J.J. Abrams), como também dirigiu o episódio mais divertido da terceira temporada de Black Mirror, "Playtest". Os dois trabalhos são parecidíssimos na forma de enxergar o sci-fi de suspense como uma farsa cheia de possibilidades prontas para explodirem juntas a qualquer momento, e no caso de Rua Cloverfield isso surge como a desculpa perfeita para transitar entre artifícios novos e velhos do gênero, mantendo o mistério ao máximo enquanto isso. A brincadeira acaba desaguando numa enorme bagunça de narrativa, mas o senso de humor e as ótimas presenças de cena estão sempre um passo à frente dos exageros de roteiro. Não vou mentir, foi a sessão de cinema mais louca que eu tive esse ano.


19. O Quarto de Jack (Lenny Abrahamson)
Uma das surpresas pra mim foi esse drama indie bem acessível que foi mais lembrado como "filme feito pro Oscar". De fato é um pouco limitado por causa desse ar um pouco fofo demais, mas a construção narrativa de O Quarto de Jack é tão eficiente em criar um olhar que venha tanto do personagem da mãe quanto da criança, que os clichês estéticos nem me incomodaram tanto. Pelo contrário, com ou sem trilha sonora esquemática, os sentimentos sempre me pareciam bem legítimos e naturais. E a história é menos sobre encarar um trauma (como via muitos comentarem) do que sobre manter os laços afetivos fortes uma vez que eles se estabelecem, não importa quais sejam as circunstâncias.


18. Invocação do Mal 2 (James Wan)
Provavelmente o "blockbuster" mais honesto do ano. Profundamente inocente e primário como filme de terror, mas é como um conto de ninar reduzido a uma coleção de cenários excêntricos que parecem saídos diretamente do pesadelo de uma criança. Tudo é exercício de gênero aqui, do drama perfeitamente estabelecido dos personagens até as grandes atrações turísticas que são os fantasmas malvados e cartunescos. Abraçar a fantasia às vezes é essencial - além dos joguinhos de câmera que Wan faz tão bem, claro.


17. A Chegada (Denis Villeneuve)
Eu confesso que sou do grupo que não engoliu muito o clímax de A Chegada, mas também acho que muito da força desse filme está em mirar numa estética que torne algo que é ridículo em belo, por uma perspectiva humanista que se sustente no universo criado - o que me lembra muito os melhores momentos de M. Night Shyamalan. Mesmo que não seja inteiramente bem-sucedido nisso, a viagem vale muito a pena: A atmosfera é envolvente, Amy Adams tem uma presença magnética, e o ar de mistério e de encantamento com a premissa sci-fi alcança até notas de transcendência pra mim. Não é o novo Solaris, mas é uma fábula cativante.


16. A 13ª Emenda (Ava DuVernay)
Pode ser que a estrutura seja o feijão com arroz dos documentários políticos, mas eu não acho que o material de A 13a. Emenda precise de muito mais do que isso. É exatamente o olhar didático sobre o racismo estrutural que a América explosiva de hoje precisava assistir, e nem por isso deixa de ser uma experiência emocionalmente complexa - a forma como os discursos políticos e as agressões baseadas em raça das imagens históricas vão se completando cria uma espiral que nos sufoca cada vez mais. Ava DuVernay condensou em um filme só todo o sentimento do Black Lives Matter junto com décadas de violência injusta acobertada institucionalmente. Não me parece um feito tão simples não.

21/12/2016

Simplicidades que instigam


Quando se tem no currículo obras-primas como Os Imperdoáveis e Sobre Meninos e Lobos, nunca é fácil corresponder a expectativas. Depois que sua carreira como diretor alcançou o prestígio do público e da crítica, especialmente depois do Oscar de melhor diretor em 1993 (que ainda é, pra mim, um dos Oscars mais justos dos últimos anos), Clint Eastwood nunca hesitou em mostrar que não ligava muito pro que todos diziam. Ele continuaria fazendo seus filmes sempre do seu jeito particular - poucas tomadas, economia narrativa, e filmar qualquer roteiro que lhe interessasse (incluindo aí uma adaptação de um musical da Broadway, cujo resultado foi bem atípico - e, pra mim, muito interessante). Eastwood é, sem sombra de dúvida, um cineasta autoral à moda antiga, e não só em seus métodos, mas em toda sua postura pragmática e seca. Um artista que apenas conta histórias e desenvolve suas ideias, mesmo quando ele não percebe que está provocando mais do que aparenta.

23/10/2016

Quando o tempo (no cinema) para


Geralmente quase ganhar um Oscar acaba trazendo uma virada brusca na carreira de uma pessoa. Não foi diferente com Richard Linklater. Na verdade, depois de um filme de três horas filmado ao longo de 12 anos, o que ele fez foi justamente voltar à simplicidade dos seus primeiros filmes. O que pouca gente esperava.

Jovens, Loucos e Mais Rebeldes!! é meio que uma "continuação de espírito" da obra-prima do diretor, Dazed and Confused, e acabou até recebendo nome de continuação. Mais uma vez Linklater busca fazer seu Clube dos Cinco pessoal, uma carta apaixonada de uma geração para outra, e o resultado, por mais que repetitivo no início, termina contagiante. A chave, pra mim, é que desta vez a questão da identidade, que sempre foi essencial nos filmes dele, vira uma grande brincadeira na qual os personagens vão trocando de roupagem só para se adaptar entre uma festa e outra, e até mesmo invertendo papéis de vez em quando. Pode até parecer que isso seja só parte de uma piada sobre grupinhos de universidade, mas o tema "personalidade" é tão forte aqui que eu não posso deixar de ignorar o quanto Linklater se propõe a uma certa iconoclastia do jovem em formação.

10/09/2016

Políticas à parte


Recorde de gritos de "Fora Temer" nos cinemas brasileiros, Aquarius não deixa de ser um filme muito mais simpático a quem concorda com o discurso corrente da nossa esquerda nesses últimos anos. Acaba me lembrando muito como Tropa de Elite, principalmente o primeiro, era conscientemente o último grande filme espiritual da Retomada - em outras palavras, saudoso de uma era governada pela direita.

Ao mesmo tempo, porém, Kléber Mendonça Filho expõe uma visão bastante singular que remete muito a gênios classicistas como Howard Hawks e John Carpenter: A ideia de cinema não como um argumento, mas como refúgio pessoal, como um lugar onde figuras cotidianas repousam, meditam e depois lutam pelo que acreditam. O Recife de Aquarius se constrói junto com as relações afetivas que o filme vai mostrando, aos poucos nos situando no universo pessoal da protagonista, e assim também aos poucos deixando sua ideologia reger os conflitos. Nesse sentido é menos um filme sobre "o Brasil de hoje" do que sobre manter ideais num momento político tão específico.